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A bebida é, na forma que lhe cabe, a companhia perfeita. Suave, sensível, estimulante dos mais libidinosos pensamentos. Faz-me pensar...
Refletir...
Sobre temas nunca dantes navegados; geralmente ligados ao absurdo, ao não-cotidianesco. Penso em como o vinho foi parar na garrafa? Quem plantou as uvas? Qual a relação de tudo isso com a folha de parreira que cobriu as vergonhas de Adão e Eva? Como se criam as tradições, os hábitos? Ah! Que chatice! Solto um grito: “O eterno retorno!” Uma cadeia de idéias. Elos de uma corrente que tende ao infinito. Gasto horas e mais horas, dias e mais dias, já contabilizei anos em um mesmo pensamento que me causou interesse e, a conclusão, é sempre a mesma: acabo sempre chegando ao ponto de partida; o navio que retorna ao mesmo porto depois de suas andanças pelo mundo. Chego de volta a mim mesmo pensando em mim e nesse estado sublime de não-ação. Ora, também concluo, às vezes, que poderia ter transformado essa labuta filosófica em profissão, com carteira de trabalho e registro previdenciário federal. Há sempre um modo de ganhar a vida com esforços mínimos. Veja só o caso do burocrata estatal: tem uma cadeira igual a minha; um cinzeiro igual ao meu; móveis cheios de pó; estantes com livros que datam de Napoleão; a cara amassada; os dedos amarelados; suas cores para roupas não fogem do marrom com branco ou no máximo um bege embolorado; se casado, tem dois filhos, a mulher se chama Márcia e moram num desses condomínios com milhares de blocos e uma piscina comunitária, que lembra, em muito, um criadouro de pombos pela disposição das janelinhas com pequenas cabeças apoiadas a olhar as crianças que se inundam nos bancos de areia do parquinho central; se solteiro, corre atrás de menininhas com a metade da metade de sua idade, tem um Passat 76 que chama de docinho e, ao contrário do seu amigo casado, habita uma quitinete minúscula, com visão para o muro embolorado dos fundos do prédio, a cortina rasgada, a torneira gotejando, a geladeira vazia, o gato com fome, onde mal cabe ele, o VHS e a TV velha; a aparência de delegado é cultivada com muita parcimônia, assim, como o bigode, é religiosamente aparado em uma barbearia onde os pares se reúnem para futebolar, politicar, mulherar e voltar, após longa reunião "no trabalho", para a Márcia ou para o docinho. Eu poderia, sim, receber para isso.
Mas, não recebo!
Linhares
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A bebida é, na forma que lhe cabe, a companhia perfeita. Suave, sensível, estimulante dos mais libidinosos pensamentos. Faz-me pensar...
Refletir...
Sobre temas nunca dantes navegados; geralmente ligados ao absurdo, ao não-cotidianesco. Penso em como o vinho foi parar na garrafa? Quem plantou as uvas? Qual a relação de tudo isso com a folha de parreira que cobriu as vergonhas de Adão e Eva? Como se criam as tradições, os hábitos? Ah! Que chatice! Solto um grito: “O eterno retorno!” Uma cadeia de idéias. Elos de uma corrente que tende ao infinito. Gasto horas e mais horas, dias e mais dias, já contabilizei anos em um mesmo pensamento que me causou interesse e, a conclusão, é sempre a mesma: acabo sempre chegando ao ponto de partida; o navio que retorna ao mesmo porto depois de suas andanças pelo mundo. Chego de volta a mim mesmo pensando em mim e nesse estado sublime de não-ação. Ora, também concluo, às vezes, que poderia ter transformado essa labuta filosófica em profissão, com carteira de trabalho e registro previdenciário federal. Há sempre um modo de ganhar a vida com esforços mínimos. Veja só o caso do burocrata estatal: tem uma cadeira igual a minha; um cinzeiro igual ao meu; móveis cheios de pó; estantes com livros que datam de Napoleão; a cara amassada; os dedos amarelados; suas cores para roupas não fogem do marrom com branco ou no máximo um bege embolorado; se casado, tem dois filhos, a mulher se chama Márcia e moram num desses condomínios com milhares de blocos e uma piscina comunitária, que lembra, em muito, um criadouro de pombos pela disposição das janelinhas com pequenas cabeças apoiadas a olhar as crianças que se inundam nos bancos de areia do parquinho central; se solteiro, corre atrás de menininhas com a metade da metade de sua idade, tem um Passat 76 que chama de docinho e, ao contrário do seu amigo casado, habita uma quitinete minúscula, com visão para o muro embolorado dos fundos do prédio, a cortina rasgada, a torneira gotejando, a geladeira vazia, o gato com fome, onde mal cabe ele, o VHS e a TV velha; a aparência de delegado é cultivada com muita parcimônia, assim, como o bigode, é religiosamente aparado em uma barbearia onde os pares se reúnem para futebolar, politicar, mulherar e voltar, após longa reunião "no trabalho", para a Márcia ou para o docinho. Eu poderia, sim, receber para isso.
Mas, não recebo!
Linhares
























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